Ontem, o Brasil foi às urnas. As semanas até o segundo turno deveriam nos ajudar a aprofundar as perguntas sobre o país que queremos construir.
Tenho pouca confiança de que os próximos dias nos oferecerão esse aprofundamento. Receio que as oportunidades de compreender sejam novamente ocupadas pelo vício de bradar, acusar e vencer.
Essa é uma dificuldade comum às eleições e, ultimamente, às relações humanas: permitir que o pensamento do outro participe da construção do nosso.
Penso no diálogo como alguém que tentou comparecer à eleição de ontem, mas encontrou a entrada obstruída. Por conveniência de quem prefere uma plateia mobilizada à possibilidade de ser questionado. Por desconhecimento de quem aprendeu a discutir sem aprender a escutar. E, talvez, pela nossa própria pressa de concluir.
A ausência pode passar despercebida num ambiente cheio de falas. Uma conversa continua acontecendo, as pessoas se manifestam, as respostas se sucedem. Ainda assim, ninguém parece disposto a considerar o que acabou de ouvir.
Nas empresas, por exemplo, essa mesma ausência compromete decisões, relações e a capacidade de perceber o que precisa ser revisto. Na vida cotidiana, vai tornando a convivência mais estreita.
É sobre essa ausência que quero pensar.
A pessoa do outro lado
Quando criança, eu desmontava telefones fixos para descobrir quem estava lá dentro. A curiosidade foi estimulada, e o hábito de perguntar permaneceu.
Anos depois, eu ouvia apresentações sobre produtos, funcionalidades e benefícios técnicos. Ficava impressionado com as possibilidades, mas saía com outras perguntas.
Uma ferramenta de e-mail podia ser extraordinária, mas o que seria escrito? Quem receberia a mensagem? O que aquela pessoa estava vivendo? Como aquela eficiência prometida melhoraria seu dia?
A pessoa do outro lado precisava entrar na conta.
O mesmo vale para o diálogo. Ter acesso à fala é uma condição importante. A qualidade da relação depende também do que acontece depois que alguém fala.
O que fazemos com a resposta que contraria nossa expectativa? Que espaço concedemos à experiência que desconhecemos? Quanto da nossa compreensão estamos dispostos a revisar?
Essa provocação gera um deslocamento que muda o que precisa ser examinado.
O diálogo depende dessa disposição de construir uma compreensão compartilhada do problema. Precisamos esclarecer quais fatos estamos considerando, o que cada informação permite concluir e onde ainda há lacunas.
Quando nossa atenção fica inteiramente ocupada em defender uma ideia, seja ela qual for, diminuem as oportunidades de descobrir o que ela deixou de fora.
A liberdade de discordar
Mário Sergio Cortella oferece uma formulação que merece atenção: “Uma democracia não é ausência de ordem, é ausência de opressão”.
Ao trazer essa reflexão, interessa observar também as maneiras discretas pelas quais retiramos legitimidade de alguém.
Podemos permitir que uma pessoa fale e tratar sua participação como um inconveniente. Podemos pedir uma opinião e demonstrar desprezo assim que ela chega. Podemos reconhecer a liberdade do outro e esperar que ele a exerça exatamente como nós exerceríamos.
A autorização fica parecida com isto: você pode pensar por conta própria, desde que chegue à conclusão que eu aprovo.
Essa dinâmica é conhecida.
O gestor pede contribuições, mas recebe toda objeção como falta de comprometimento. Na próxima reunião, escolhe melhor o que dizer. Depois de algum tempo, passa a dizer apenas o que parece seguro.
Num relacionamento, aprende a dizer apenas o que não gera conflito. Com o tempo, perde sua identidade e o caminho para o fim é inevitável.
Para quem decide, o silêncio pode se parecer com concordância. Para quem se calou, pode representar uma maneira de preservar o emprego, a relação ou o espaço que conquistou.
Por isso, a possibilidade de discordar precisa ser avaliada também pelas consequências que recaem sobre quem discorda.
Uma pessoa com autoridade consegue expor uma posição com riscos diferentes dos de quem depende de sua avaliação. Quem tem mais poder numa relação precisa considerar essa diferença ao convidar alguém a participar.
O que estou disposto a aprender?
Ter ciência de que alguém pensa diferente é relativamente simples. Criar consciência sobre essa diferença exige mais atenção.
Por que essa pessoa chegou a essa conclusão? O que conhece que eu desconheço? Que experiência dá peso ao que está dizendo? Onde ela pode estar enganada? Onde eu posso estar enganado?
Podemos reunir pesquisas, entrevistas, comentários e relatórios sem permitir que nenhuma dessas informações altere uma decisão.
É possível ter ciência de uma dificuldade e continuar agindo como se ela não existisse. A consciência ganha expressão quando conseguimos perguntar o que aquele conhecimento exige de nós.
Imagine uma marca que descobre que seus clientes consideram o processo de compra confuso.
A reação imediata pode ser produzir mais conteúdo explicativo. Talvez isso ajude, mas a investigação também precisa alcançar o próprio processo: quais etapas geram dúvida? Que exigências poderiam ser simplificadas? Onde a empresa está transferindo trabalho ao cliente? Onde nós simplesmente não somos bons o suficiente e precisamos melhorar?
A resposta trazida pelas pessoas precisa ser ouvida com atenção e respeito.
Caso contrário, a empresa pode aperfeiçoar continuamente a explicação de uma dificuldade que ela mesma mantém.
É, de fato, uma conversa?
Toda essa reflexão exige um cuidado: há situações em que a possibilidade de conversar está sendo deliberadamente atacada.
Karl Popper formulou o paradoxo da tolerância ao advertir que uma tolerância ilimitada pode permitir a destruição da sociedade tolerante. Também ressaltou a importância de enfrentar ideias intolerantes pela argumentação racional e pela opinião pública, sem defender a supressão automática de sua expressão.
Precisamos saber separar o que é discordância e que são práticas que impedem alguém de participar.
Uma objeção pode ser incômoda e necessária. Pode gerar até o que chamamos aqui de “desconforto produtivo”. Já uma ameaça cria outra condição. A humilhação sistemática, a perseguição e a intimidação tornam a própria participação arriscada.
Quem sofre uma agressão não precisa se expor novamente para provar que está aberto ao diálogo. A dignidade de uma pessoa precisa permanecer reconhecida mesmo quando sua fala é hesitante, seu repertório é limitado ou sua opinião nos desagrada.
Uma conversa restrita a quem argumenta como nós deixe gente do lado de fora, e isso não é bom. A diversidade de pensamentos e ideias faz com que esses mesmos pensamentos e ideias se alimentem uns dos outros e se fortaleçam.
Essa colisão de sinapses faz com que, aos poucos, vejamos coisas que antes não víamos. Outros caminhos vão se revelando, aos poucos.
Só aos poucos
Uma frase de Guimarães Rosa diz: “Não convém fazer escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro”.
Esse “aos poucos” se refere a uma disposição para a compreensão.
Às vezes, precisamos de tempo para perceber que respondemos a algo que o outro não disse. Outras vezes, precisamos admitir que a primeira explicação era insuficiente. Quase sempre, uma pergunta adicional revela que havia uma preocupação legítima escondida em algum lugar ou em alguma frase não dita.
Esse tempo também faz parte da responsabilidade de decidir.
No cotidiano, podemos começar por ações pequenas. Antes de responder a uma crítica, procurar entender o problema que ela aponta. Antes de atribuir resistência, perguntar o que aquela decisão exige de quem terá de executá-la. Antes de concluir que o cliente não entendeu, examinar o que nossa comunicação e nossa entrega permitiram que ele entendesse.
Também podemos explicar com nossas próprias palavras o argumento que acabamos de ouvir e verificar se o compreendemos. É surpreendente o quanto uma discussão pode mudar quando essa verificação acontece.
Mais três semanas…
Minha preocupação com os próximos dias até o segundo turno permanece. Tenho receio de que a disputa continue oferecendo pouco espaço para esse trabalho paciente de examinar propostas, consequências e experiências.
Ainda assim, a maneira como conversamos nas empresas, em casa e entre amigos está ao nosso alcance. Podemos criar condições para que uma pergunta sobreviva à primeira reação defensiva. Podemos sustentar uma conversa até compreender melhor o que está em jogo.
Essa responsabilidade começa antes de publicar uma mensagem e continua depois que alguém responde.
Volto à pergunta: o que tudo isso representa para a pessoa do outro lado?
Ela vale para uma campanha, uma ferramenta, uma decisão de negócio e uma conversa difícil.
Talvez precisemos recuperá-la com mais frequência, especialmente quando estamos muito seguros do que temos a dizer.
A abstenção do diálogo pode ser produzida por quem obstrui sua entrada, por quem desconhece as condições necessárias à sua presença e por quem já deixou de esperar que ele venha.
Num mundo em que tantas pessoas disputam a oportunidade de falar, conceder ao outro a possibilidade de participar do nosso pensamento é uma escolha e um ato de gentileza: com o outro e com você.
É também uma forma de começar a construir algo juntos.
Talvez a única forma que faça sentido.
E você aí do outro lado, qual a sua opinião sobre isso?
Até breve!
Felipe Gondin

