Você é livre ou escravo do seu passado?
Honrar o passado é diferente de se prender a ele. Uma reflexão sobre raízes e liberdade.
Uma das formas que sempre gostei para analisar (outras) formas de ver o mundo é o pensamento alheio.
Acredito que pensamentos, aforismos, poesias, letras de música, ditados populares, entre tantos outros formatos curtos, têm o poder de sintetizar o conhecimento de forma impactante e atemporal.
Em muitos desses casos, o recorte textual extrapola aquela obra onde o texto está inserido e ganha múltiplas interpretações, em diferentes contextos, mundo afora.
E vejo esse transbordo, muitas vezes, nas interpretações e associações que faço com meu próprio ofício. Para quem trabalha com posicionamento e comportamento de consumo, nossos dilemas são um prato cheio para entender o universo das marcas.
Afinal, cada um é eternamente responsável pelo que cativa, não é mesmo? Em qualquer contexto 🙂
Ah, tia Rita, que saudade…
Esses dias estávamos, minha esposa e eu, ouvindo uma playlist da saudosa rainha Rita Lee.
Entre tantos clássicos dela que estão no nosso DNA, me chamou atenção uma música “nova”, desconhecida para mim até então. A dupla Anavitória cantava “Amarelo, Azul e Branco”, quando Rita surge entoando os seguintes versos:
Ao meu passado
eu devo o meu saber e a minha ignorância
as minhas necessidades, as minhas relações
a minha cultura e o meu corpo.
Que espaço o meu passado deixa para a minha liberdade hoje?
Não sou escrava dele.
Rita tinha o raro dom de honrar o passado e, com seus aprendizados, moldar o tempo que vinha a seguir. Fez isso por 60 anos, construindo a sua história e parte da nossa.
Uma das maiores riquezas de qualquer pessoa é o seu ponto de vista, construído a partir de suas referências. As referências de Rita, por tudo que viu e viveu, eram as mais diversas possíveis. Seu papel então, como artista, era fazer uma curadoria disso, se apropriar do que lhe era conveniente e seguir.
Afinal, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Lavoisier já conhecia Rita.
Sobre o texto
O trecho acima, cantado por Rita, não foi escrito por ela.
O texto é obra de uma mulher que foi tão importante e relevante quanto Rita: Simone de Beauvoir, escritora, filósofa, intelectual e ativista francesa, considerada a “mãe” do feminismo moderno e uma das figuras mais influentes do Século XX.
Simone, assim como Rita, foi casada com um homem das letras: Jean-Paul Sartre, pai do Existencialismo e Prêmio Nobel de Literatura em 1964.
O trecho foi publicado no epílogo no livro A Força das Coisas, de 1963, o terceiro dos seus quatro livros de memórias, que muda o foco da liberdade soberana (a ideia de podermos ser o que quisermos) e reconhece que o mundo, a história, a política e o próprio corpo impõem limites.
No entanto, mesmo dentro desses limites impostos pelas coisas, das quais temos pouco ou nenhum controle, ainda precisamos exercer nossa liberdade para que tenhamos uma vida que valha a pena.
O passado e o mercado
Vemos muitas empresas cuidarem das suas marcas sendo reféns da escravidão de quem foram, principalmente em dois cenários:
dependentes da tradição, dos valores e do sucesso de outrora que supostamente os credencia para continuar relevantes;
a miopia das mudanças de mercado e de comportamento do consumidor, que resulta na manutenção do status quo porque, afinal, sempre foi feito assim.
O passado, o que já construímos, nos traz uma base sólida de aprendizado e um legado de reconhecimento sobre o que fizemos. Devemos ter orgulho disso. Porém, como diz o texto da música, traz sabedoria e ignorância.
Ignorância porque o futuro não pode ser construído somente olhando para trás. Podemos ter sido incríveis até aqui, mas isso não nos manterá assim para a eternidade.
Quando você ficou com medo?
Por que vemos marcas incríveis como Patagonia, Harley, Apple, Disney, Coca, entre tantas outras gigantes, constantemente em movimento?
Elas se apoiam no que foi construído, na credibilidade que adquiriram e no posicionamento que conquistaram, mas sabem que o mundo em que foram forjadas não é o mesmo que continuarão a influenciar.
Mudam mercados, leis, canais de comunicação, hábitos de consumo, cultura, necessidades… e o ambiente se torna algo diferente do que dominávamos, mas com conhecimento suficiente para seguir em frente.
Uma marca forte só se tornou forte porque desfrutou da liberdade de questionar, se diferenciar e mostrar a sua melhor versão. E isso não deve mudar nunca.
Não é romântico, muito menos fácil, se posicionar e construir coerência no longo prazo. Sempre paga-se um preço por ser quem se é. Muitos não estão dispostos a fazê-lo e é aqui que a oportunidade sempre morou.
A recompensa disso? A liberdade e o reconhecimento de quem admira sua história.
No ar que eu respiro, eu sinto prazer
De ser quem eu sou, de estar onde estou
Agora só falta você
E os acomodados que se incomodem!
Nos vemos em breve!


